Um Manual Para Mudar a Forma Como Filmamos Desporto Feminino
A União Europeia de Radiodifusão (UER), conhecida internacionalmente pela sigla EBU, publicou pela primeira vez um conjunto de diretrizes oficiais destinadas a operadores de câmara, realizadores e produtores de transmissões desportivas. O objetivo é claro: acabar com os enquadramentos que sexualizam desnecessariamente as atletas femininas durante as competições.
O documento surge num momento em que o desporto feminino atinge audiências recorde a nível europeu, mas continua a ser filmado, muitas vezes, com códigos visuais herdados de décadas passadas. Planos aproximados a zonas do corpo sem relação com o gesto desportivo, câmaras lentas focadas em detalhes anatómicos ou ângulos baixos escolhidos por motivos estéticos duvidosos foram práticas comuns que agora estão sob escrutínio.
O Que Dizem as Novas Diretrizes
O manual da UER estabelece princípios concretos que qualquer equipa de produção deve respeitar. Entre as recomendações mais relevantes estão:
Foco no gesto técnico — a câmara deve acompanhar o movimento desportivo, não o corpo em si. Um remate, uma corrida ou um salto justificam determinados enquadramentos; um close-up gratuito, não.
Igualdade de tratamento — o critério a aplicar é simples: se o mesmo plano não seria filmado num atleta masculino, também não deve ser filmado numa atleta feminina.
Evitar câmara lenta desnecessária — a técnica do slow motion deve servir a leitura tática do jogo, nunca a estetização do corpo.
As diretrizes procuram assegurar que a cobertura desportiva feminina se baseia no mérito atlético, não na aparência das intervenientes.
Impacto na Produção Audiovisual Europeia
A UER agrupa mais de 100 organismos de comunicação social em toda a Europa, incluindo a RTP. Isto significa que as diretrizes têm potencial para transformar, na prática, a linguagem visual das transmissões desportivas em Portugal e nos restantes países membros.
Realizadores e equipas de exteriores terão de rever os manuais internos de produção, os storyboards de câmaras fixas e móveis, e até a formação de novos operadores. A mudança não é apenas ética, é também técnica: implica repensar posicionamentos, lentes, alturas de tripé e critérios de seleção de imagens em régie.
Uma Tendência Global no Broadcasting Desportivo
A UER não age isolada. O Comité Olímpico Internacional já tinha publicado, em anos recentes, orientações semelhantes para as transmissões dos Jogos Olímpicos, e federações como a FIFA e a UEFA têm vindo a incorporar preocupações parecidas nos contratos com host broadcasters. O que muda com este novo documento é o carácter estruturado e detalhado das recomendações, que passam a funcionar como referência para toda a indústria.
Perspetiva RAFA Audiovisual
Como profissional de vídeo no Alto Minho, acompanho de perto esta discussão. A câmara nunca é neutra: cada ângulo, cada lente, cada duração de plano é uma escolha editorial que comunica algo sobre quem estamos a filmar. Esta orientação da UER é um passo importante para que o desporto feminino seja tratado com a mesma seriedade visual que o masculino sempre teve.
Nas coberturas que faço, seja em eventos desportivos, culturais ou institucionais, o princípio é o mesmo: filmar o gesto, a emoção e o contexto, não o corpo pelo corpo. É uma questão de respeito pelas pessoas que estão à frente da lente e, também, de rigor profissional. Espero que estas diretrizes cheguem rapidamente às escolas de audiovisual e às produtoras portuguesas, porque a mudança começa na formação de quem opera a câmara.
--- Fonte: PetaPixel | Autor original: Jaron Schneider Fotografia: Jaron Schneider / PetaPixel Artigo original: https://petapixel.com/2026/07/14/official-guide-outlines-how-to-avoid-sexual-camera-angles-of-women-athletes/ Tradução e adaptação: RAFA Audiovisual — Produção de Vídeo e Fotografia no Alto Minho