Um filme que oficialmente não deveria estar nas nossas mãos

A Kodak Verita 200D é uma daquelas películas que existem num limbo curioso: foi fabricada, foi usada em produções de peso como a terceira temporada de Euphoria, mas nunca chegou às prateleiras dos fotógrafos. A Kodak criou-a a pensar exclusivamente no cinema profissional e não a distribui pelo canal fotográfico tradicional.

O único motivo pelo qual foi possível testá-la em contexto fotográfico foi através de um contacto que trabalha na indústria cinematográfica. Comprou um rolo completo de Verita 200D e rebobinou parte para canisters 35mm compatíveis com câmaras fotográficas convencionais. Sem esse acesso, nenhum fotógrafo consegue sequer aproximar-se deste stock.

O que torna a Verita 200D diferente

A Kodak apresentou a Verita como um filme concebido para dar aos diretores de fotografia uma paleta mais suave, com contraste controlado e uma resposta cromática pensada para os tons de pele complexos que caracterizam a estética de Sam Levinson em Euphoria. É um stock daylight de ISO 200, com grão fino e uma latitude generosa nas altas luzes.

Ao contrário das emulsões clássicas como a Vision3 500T ou a Portra 400, a Verita foi otimizada para um look específico: mais orgânica, menos clínica, com uma transição de sombra para luz que remete para as películas fotoquímicas dos anos 80 e 90.

Como se comporta em fotografia de rua e retrato

Nos testes realizados, a película revelou uma saturação contida, muito ao gosto do cinema contemporâneo, com verdes mais dessaturados e vermelhos que puxam para o tijolo em vez do escarlate. Em retrato, os tons de pele saem quentes mas não alaranjados, com uma suavidade natural nas transições.

É o tipo de filme que faz uma fotografia parecer um fotograma extraído de uma longa-metragem, mais do que uma imagem estática.

O grão é discreto para um ISO 200 e a resposta em condições de luz difusa — típica do Norte de Portugal no outono e inverno — é particularmente interessante para quem procura um look cinematográfico sem recorrer a filtros digitais.

Revelação e limitações práticas

Sendo uma película ECN-2 e não C-41, a revelação exige um laboratório especializado, o que em Portugal limita as opções e encarece o processo. É preciso remover a camada de rem-jet antes da revelação, algo que a maioria dos labs fotográficos convencionais não faz.

Esta é a razão pela qual, mesmo que a Kodak decidisse vender a Verita ao público, a sua adoção seria sempre limitada. Não é um filme para quem quer conveniência — é um objeto de nicho, quase artesanal.

Perspetiva RAFA Audiovisual

Trabalhando com vídeo e fotografia no Alto Minho, olhamos para esta experiência como um lembrete de que o look cinematográfico começa muito antes da pós-produção. A escolha de um stock — ou, no mundo digital, de um perfil de cor e de uma LUT — define a linguagem visual de um projeto.

Não trabalhamos com película ECN-2 no dia a dia, mas transportamos essa lógica para os nossos projetos digitais: paletas contidas, tons de pele quentes mas fiéis, grão controlado e uma abordagem que valoriza a atmosfera em vez do impacto imediato. Em vídeos institucionais, imobiliários ou eventos culturais no Minho, esta sensibilidade cinematográfica faz toda a diferença entre um registo funcional e uma peça com identidade visual própria.

--- Fonte: PetaPixel | Autor original: Raf Lopes Fotografia: Raf Lopes / PetaPixel Artigo original: https://petapixel.com/2026/08/15/kodak-verita-200-no-consumer-version-of-this-film-exists-but-i-shot-it-anyway/ Tradução e adaptação: RAFA Audiovisual — Produção de Vídeo e Fotografia no Alto Minho