O regresso do formato mais imersivo do cinema

Christopher Nolan volta a apostar tudo no IMAX 70mm para a sua nova longa-metragem, The Odyssey (A Odisseia). O realizador britânico, conhecido pela sua devoção quase religiosa ao filme fotoquímico, escolheu novamente o formato de grande dimensão como a única forma verdadeiramente autêntica de experienciar a sua adaptação do épico de Homero.

O problema? Apenas 41 salas de cinema em todo o mundo estão equipadas com projetores capazes de exibir o filme na sua glória máxima. Uma raridade que transforma cada sessão num acontecimento quase cerimonial.

O que torna o IMAX 70mm tão especial

Ao contrário do formato digital ou até do 35mm tradicional, o IMAX 70mm utiliza uma película que corre horizontalmente pelo projetor, com uma área de imagem cerca de dez vezes maior do que a de um fotograma de 35mm convencional. O resultado é uma resolução que ultrapassa qualquer sistema digital atual, com detalhe e latitude dinâmica que continuam a impressionar mesmo décadas após a criação do formato.

Cada bobina de filme IMAX 70mm pesa dezenas de quilos e requer uma equipa técnica especializada. Os projetores, verdadeiras máquinas industriais, são operados por projecionistas com formação específica — uma profissão que quase desapareceu na era do cinema digital.

Os bastidores da projeção gigante

Segundo o relato publicado pelo PetaPixel, projetar The Odyssey em IMAX 70mm exige uma logística impressionante. As bobinas de filme podem atingir vários quilómetros de comprimento, exigindo sistemas de plataformas horizontais que alimentam o projetor de forma contínua durante toda a sessão.

É como conduzir um camião articulado enquanto se pilota um avião — cada movimento tem consequências, e não há forma de voltar atrás sem interromper a experiência do espectador.

A manutenção destes equipamentos é outra questão delicada. Muitas das peças já não são fabricadas, obrigando os cinemas a recorrer a técnicos veteranos e a peças recondicionadas para manter os projetores operacionais.

Nolan, o último defensor da película

Christopher Nolan tornou-se, ao longo dos anos, o principal embaixador do cinema fotoquímico em Hollywood. Depois de Oppenheimer, Tenet e Dunkirk, o realizador insiste que o IMAX 70mm oferece uma experiência sensorial que nenhum sistema digital consegue replicar — nem sequer os projetores IMAX laser de última geração.

A escolha do formato para The Odyssey faz sentido narrativo: um épico sobre viagens monumentais merece ser visto num ecrã igualmente monumental. O problema é que a esmagadora maioria dos espectadores nunca terá acesso a esta versão.

E em Portugal?

Infelizmente, nenhuma sala portuguesa está incluída na lista das 41 salas mundiais capazes de projetar IMAX 70mm. Os cinéfilos mais dedicados terão de viajar até Londres, Paris, Madrid ou outras capitais europeias equipadas para viver a experiência tal como Nolan a concebeu.

As salas IMAX existentes em Portugal utilizam projeção digital, que oferece uma experiência de qualidade elevada mas que fica longe da densidade visual do formato fotoquímico original.

Perspetiva RAFA Audiovisual

Como profissional do audiovisual no Alto Minho, acompanho com fascínio esta resistência de Nolan ao domínio total do digital. Não é nostalgia gratuita — o IMAX 70mm continua a oferecer uma qualidade de imagem que a maioria dos sistemas digitais só agora começa a aproximar-se.

Nos meus projetos de vídeo profissional, trabalho exclusivamente em digital 4K e 6K, porque é a ferramenta certa para o contexto — corporate, imobiliário, eventos e documentário. Mas a existência de projetos como The Odyssey lembra-nos que a técnica cinematográfica é muito mais do que resolução: é textura, latitude dinâmica, cor e, sobretudo, uma intenção artística deliberada. Cada formato tem o seu lugar, e Nolan continua a ensinar-nos que a escolha do suporte é uma decisão criativa tão importante quanto a composição de um plano.

--- Fonte: PetaPixel | Autor original: Matt Growcoot Fotografia: Matt Growcoot / PetaPixel Artigo original: https://petapixel.com/2026/07/15/this-is-what-its-like-projecting-gigantic-70mm-imax-film-for-the-odyssey/ Tradução e adaptação: RAFA Audiovisual — Produção de Vídeo e Fotografia no Alto Minho