O postal que todos já viram
Chegas à Torre Eiffel, ao Coliseu de Roma ou à Ponte de Dom Luís no Porto. Tiras da mochila a câmara, procuras o ângulo perfeito e disparas. Ao voltar a casa, comparas o resultado com milhões de fotografias praticamente idênticas que já existem online. A pergunta incómoda impõe-se: qual é o valor real desta imagem?
Dale Baskin, na DPReview, coloca o dedo na ferida de uma prática que a maioria dos fotógrafos de viagem repete sem questionar. Passamos horas a perseguir a composição canónica do monumento e esquecemos que a verdadeira viagem acontece entre esses momentos icónicos.
Porque é que as fotos de monumentos envelhecem mal
Uma fotografia tecnicamente impecável da Sagrada Família não te diz absolutamente nada sobre a tua experiência em Barcelona. Não mostra o café que bebeste ao pequeno-almoço, a conversa improvável com um desconhecido, nem a luz estranha que apanhou o teu companheiro de viagem a atravessar uma rua qualquer.
O algoritmo do Google Images já te devolve dez mil versões melhores do que a tua daquele mesmo enquadramento. O que ele nunca te devolverá é o instante privado que só os teus olhos viram.
Daqui a uns anos, não vais querer saber da tua versão da fotografia que toda a gente tem. Vais valorizar aquela que só tu podias ter captado.
O que fotografar em alternativa
A proposta não é ignorar os locais famosos, é redistribuir a tua atenção. Em vez de gastar noventa por cento do cartão de memória no monumento e dez por cento no resto, inverte a proporção.
Aponta a câmara para as mãos do padeiro a moldar o pão às cinco da manhã. Para os pés cansados dos teus filhos ao fim de um dia de caminhada. Para a mesa por arrumar de um pequeno-almoço qualquer. Para o reflexo da janela do comboio numa paisagem que desaparece. Estes são os detalhes que constroem memória e que nenhum outro fotógrafo do mundo pode replicar, porque não estava lá.
Uma questão de perspetiva, não de equipamento
Isto não tem nada a ver com o teu equipamento. Uma Leica Q3, uma Fujifilm X100VI ou o telemóvel que tens no bolso funcionam igualmente bem. O que muda é o olhar. Trocas o modo turista com câmara pelo modo autor visual.
Baskin sugere uma disciplina simples: por cada fotografia que tirares de um ícone turístico, tira cinco de tudo o resto. Do pormenor, do ambiente, das pessoas, dos gestos, das sombras. Ao fim de uma semana de viagem terás um arquivo que conta uma história em vez de uma coleção de postais.
A memória que ninguém mais tem
As fotografias mais valiosas do teu arquivo, daqui a vinte anos, não serão as tecnicamente perfeitas. Serão as imperfeitas, tremidas, mal enquadradas mesmo, que contêm um rosto, um gesto ou uma luz que só tu presenciaste. É essa a diferença entre documentar e colecionar.
Perspetiva RAFA Audiovisual
Como cinegrafista no Alto Minho, encontro esta armadilha constantemente, tanto em vídeo como em fotografia. Os clientes pedem-me muitas vezes o plano óbvio: a fachada do restaurante, o pormenor do prato, o exterior do alojamento local. E eu faço-os, claro. Mas o que realmente vende, o que emociona quem vê, são os planos laterais: as mãos do cozinheiro, o vapor a subir da panela, o hóspede a rir na varanda ao pôr do sol.
Na cobertura das Feiras Novas em Ponte de Lima, aprendi que o fogo de artifício é fotografado por toda a gente. O que fica na memória é o rosto iluminado de uma criança a olhar para o céu. Se estás a planear uma viagem pelo Minho, ou se precisas de conteúdo audiovisual autoral para o teu negócio, o conselho é o mesmo: fotografa a viagem, não o cartão-postal.
--- Fonte: DPReview | Autor original: Dale Baskin Fotografia: Dale Baskin / DPReview Artigo original: https://www.dpreview.com/photography/stop-photographing-the-landmark-start-photographing-the-trip/ Tradução e adaptação: RAFA Audiovisual — Produção de Vídeo e Fotografia no Alto Minho