Uma pergunta como ponto de partida

Todo o bom ensaio fotográfico começa com uma dúvida criativa. Neste caso, a questão era simples mas ambiciosa: seria possível construir uma história editorial completa sobre corrida utilizando apenas alguns fotogramas capturados numa das câmaras analógicas mais icónicas de sempre — a Hasselblad XPan? O fotógrafo Tom Kluyver decidiu responder com a única linguagem que interessa, a das imagens.

O desafio ganhou contornos ainda mais interessantes por envolver uma disciplina — a corrida — que exige movimento contínuo, dinâmica e ritmo. Elementos que, à primeira vista, parecem contrariar a paciência e a lentidão associadas à fotografia analógica em formato panorâmico.

O formato panorâmico como narrativa

O Hasselblad XPan é uma câmara singular: usa película 35mm mas produz negativos de proporção 65x24mm, criando aquela característica imagem panorâmica ultra-alongada que se tornou marca registada do modelo. Este formato widescreen aproxima-se muito da linguagem cinematográfica, sendo por isso perfeito para contar histórias em movimento.

O formato panorâmico obriga o fotógrafo a pensar em camadas horizontais, em ação e cenário simultaneamente. É quase como planear planos de cinema.

Numa sessão de corrida, este formato permite captar em simultâneo o atleta, a paisagem envolvente e o espaço vazio que sugere direção — três ingredientes fundamentais para transmitir velocidade e propósito num único fotograma.

Trabalhar com película: menos é mais

Filmar em película impõe uma disciplina que o digital raramente exige. Cada rolo tem um número limitado de fotogramas, e no caso do XPan esse número é ainda mais reduzido por causa do formato panorâmico. Kluyver teve de planear cada disparo com precisão cirúrgica, antecipando movimento, luz e composição.

Esta limitação, longe de ser um obstáculo, tornou-se o motor criativo do projeto. Quando cada fotograma custa e conta, o fotógrafo é forçado a esperar pelo momento certo — aquela fração de segundo em que corredor, luz e enquadramento convergem para formar uma imagem verdadeiramente editorial.

Direção de arte e ritmo visual

Um ensaio editorial não é apenas uma coleção de fotografias bonitas. É uma narrativa visual com ritmo, tensão e resolução. A escolha do figurino, o local, a hora do dia e a direção do corredor foram pensados para dialogar com o formato horizontal da XPan.

A luz natural, sobretudo a das horas douradas, funciona particularmente bem com filme, oferecendo aquela textura orgânica e paleta quente que nenhum filtro digital consegue replicar com total fidelidade. O grão da película acrescenta ainda uma camada tátil que reforça a sensação de esforço físico e autenticidade.

Perspetiva RAFA Audiovisual

Trabalho no Alto Minho há alguns anos e vejo neste ensaio de Kluyver uma lição valiosa para quem produz conteúdo audiovisual hoje: a limitação técnica pode ser a maior aliada da criatividade. Quando estou a filmar uma prova desportiva, uma marcha das Feiras Novas ou um trailer de imóvel, aplico o mesmo princípio — pensar cada plano como se fosse o único disponível.

O formato panorâmico do XPan lembra-me do quanto o enquadramento widescreen ainda é subutilizado em conteúdo de redes sociais e web. Em vídeo, o cinemascope (2.39:1) tem um efeito emocional imediato — dá dignidade cinematográfica a qualquer história, seja uma corrida ao amanhecer em Viana do Castelo ou um casamento (que não faço, mas o princípio aplica-se). Para quem quer levar o seu projeto visual mais longe, vale a pena estudar como fotógrafos como Kluyver constroem narrativa com tão poucos elementos. É essa a essência do bom audiovisual: fazer muito com pouco.

--- Fonte: PetaPixel | Autor original: Tom Kluyver Fotografia: Tom Kluyver / PetaPixel Artigo original: https://petapixel.com/2026/07/12/running-on-film-with-the-hasselblad-xpan/ Tradução e adaptação: RAFA Audiovisual — Produção de Vídeo e Fotografia no Alto Minho