Uma proibição que levanta mais perguntas do que respostas
A Agência Islandesa do Ambiente anunciou recentemente novas restrições ao uso de drones em várias zonas protegidas das terras altas, apresentando a medida como um passo essencial para a conservação da natureza. À primeira vista, a decisão parece responsável e alinhada com a crescente preocupação ambiental. No entanto, quem conhece o terreno e trabalha legalmente nestas áreas há vários verões tem uma visão bem diferente.
O fotógrafo e formador Jeroen Van Nieuwenhove, que durante anos lecionou workshops de fotografia aérea na Islândia com todas as licenças em dia, descreve a nova regulamentação como pouco mais do que "teatro de conservação". E os argumentos que apresenta merecem atenção.
Quando as regras existem mas ninguém fiscaliza
Durante vários anos, Van Nieuwenhove operou com autorizações oficiais emitidas pela própria agência ambiental. Submeteu os pedidos dentro dos prazos, cumpriu todas as condições impostas e nunca recebeu qualquer queixa — nem de guardas florestais, nem de outros visitantes, nem da entidade reguladora. Ainda assim, viu o seu acesso restringido sem que tenha existido qualquer incidente prévio.
Quando se aplicam restrições generalizadas a operadores que sempre cumpriram as regras, enquanto os infractores continuam sem fiscalização, a conservação transforma-se num gesto simbólico.
Esta é uma das críticas centrais: a proibição atinge precisamente quem mais respeita a natureza, deixando intocados aqueles que voam sem autorização, sem conhecimento técnico e frequentemente em zonas sensíveis para a fauna.
O problema da fiscalização inexistente
Um dos pontos mais fracos da nova legislação é a ausência de meios reais para fazer cumprir as regras. A Islândia tem um território vasto, com terras altas praticamente desabitadas, onde a presença de guardas é mínima. Sem fiscalização efetiva, as restrições funcionam apenas para quem voluntariamente segue a lei.
O resultado é paradoxal: operadores profissionais, formadores e fotógrafos com seguros, licenças e formação certificada veem o seu trabalho inviabilizado, enquanto turistas ocasionais continuam a lançar drones de consumo em qualquer ponto da paisagem, muitas vezes perturbando aves nidificantes ou outros animais.
Impacto real no turismo audiovisual
A Islândia tornou-se, na última década, um dos destinos mais procurados por fotógrafos e cineastas de paisagem do mundo inteiro. As suas cascatas, glaciares, campos de lava e auroras boreais alimentam um ecossistema económico significativo — workshops, retiros criativos, produções comerciais e documentais.
Restringir o uso de drones de forma indiscriminada pode ter consequências económicas que extravasam largamente o setor da imagem. Muitos profissionais escolhem a Islândia precisamente pela possibilidade de captar perspetivas aéreas únicas. Sem isso, parte da atratividade do destino desaparece.
Conservação verdadeira exige outras medidas
A proteção genuína de áreas naturais sensíveis passa por medidas estruturadas e fiscalizáveis: zonamento claro, sistemas de notificação prévia, identificação obrigatória de equipamentos, formação acessível e, sobretudo, presença humana nos locais críticos. Proibir simplesmente é o caminho mais fácil, mas raramente o mais eficaz.
Outros países europeus têm desenvolvido modelos de coexistência entre operadores aéreos e conservação ambiental que poderiam servir de inspiração. A regulamentação europeia EASA, por exemplo, distingue claramente entre categorias de operação e perfis de risco, permitindo abordagens proporcionais em vez de proibições generalizadas.
Perspetiva RAFA Audiovisual
No Alto Minho, conhecemos bem o equilíbrio delicado entre captar imagens espetaculares e respeitar paisagens protegidas. As nossas filmagens com drone em locais como o Parque Nacional da Peneda-Gerês ou nos vales do Lima e do Minho obedecem sempre à legislação da ANAC e às normas das áreas protegidas portuguesas.
A experiência islandesa serve de alerta: regulamentação sem fiscalização não protege a natureza, apenas afasta os profissionais que mais investem em fazer as coisas bem. A solução passa pela colaboração entre operadores certificados e autoridades, criando protocolos claros, formação contínua e mecanismos reais de controlo. Só assim é possível continuar a contar histórias visuais extraordinárias sem comprometer aquilo que queremos preservar.
--- Fonte: PetaPixel | Autor original: Jeroen Van Nieuwenhove Fotografia: Jeroen Van Nieuwenhove / PetaPixel Artigo original: https://petapixel.com/2026/06/07/icelands-drone-ban-is-nature-conservation-theater/ Tradução e adaptação: RAFA Audiovisual — Produção de Vídeo e Fotografia no Alto Minho